Mademoiselle Loup

IX. Adolescência

October 21, 2009 · 1 Comment

E agora?
Não tenho nada
A não ser a maçã que acompanha a mão suja.
A maçã mais saborosa na Terra.
.
Lembrei-me que a senhora Rosa adorava maçãs.
Senhora Rosa adoraria com certeza
A maçã suculenta devorada,
Esta da forma mais lenta
Absorvida, não por mim adorada,
Mas para mim saborosa.

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Não foram sorrisos de abraços com laços

October 18, 2009 · 1 Comment

Não foram sorrisos de abraços com laços
De aptidão tanto quanto (tudo) utópica,
Não venceram a luta,
Pois se a força de muitos mil Homens
Não fosse mais forte,
Decerto não haveria glória.
.
Grito,
Não por ordem nossa na ordem.
Não por anarquia vestida de fantasia.
Apenas por olhar-nos encher esta história
Com força da verdadeira,
Com força da tua.
Força da minha.
Força humana.

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Leonor

October 16, 2009 · 1 Comment

Num nada momento de nunca
Q’ia andando, sem nunca pisar quase nada,
Olhei, e a meu tão chegado lado
Ela apenas representava.
Falava ser Leonor, ser encantada.
.
Encantado eu por Leonor,
Logo actuei na mão com flor.
Ao sabor do vento soltei o que sei ser
P’ró nome belo,
Gritei com voz curada por mel
E sem papel, d’alma com prazer:
.
«Cativo, assim vou vivendo
Em braços quentes, p’lo teu cabelo.
E olho, decorando em cada traço
Cada face da tua personalidade.
.
Fala-me que não me contarás hoje
Mas amanhã, pela manhã,
Quando o Sol tiver nascido
E eu acordar com um sorriso.»
.
Mas Leonor, rapariga da cor,
Como eu lhe chamo, que pinta o meu universo,
Comigo não quis compor
A música das palavras de cada verso.
.
Não tem mal, Leonor.
Porque hoje eu vou-me recompor.
Eu já não sofro por amor.

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Que tenhas tu um bom dia

October 10, 2009 · 2 Comments

Vou descendo a rua no dia
Que o Sol, tão alto, ilumina.
E não tão alto estando o ponteiro
Do mosteiro, aponta o pequeno na esquerda,
Aponta o grande no meio.
.
É em passo, então, que me esqueço
Que não esqueço nunca o meu canto,
Só chego a ele não pensando.
Medi o rumo até à esplanada
Donde vejo a minha cidade inacabada
Com aquela p’ra sempre acabada fachada.
Ao lado o velho sentado,
Fala ele ser igual tudo uns anos atrás.
.
Raio da criançada!
É barulho na estrada!
Raio da mãe tão pouco ralada!
E raios partam outra vez a criançada
E o murmurar do autocarro, que passa,
Aquele motor que tanto me mata…
.
Ninguém tão pouco se importa…
Até à esplanada, na minha ida automática
Espalho um “Bom dia” e sorriso na cara.
A criançada vai correndo,
Cumprimentando apenas a namorada.
A mãe fugindo até ao emprego
E só do velho aposentado ouço, coitado dele,
Uma palavra, q’outra companhia não acha.
.
Mas eu percebo.
É só que as cabeças ecoam, em voz de correria:
“Há um prato a encher no final do dia.”

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II. Ingenuidade

October 3, 2009 · 1 Comment

Sem racionalismo eu sinto,
Eu não penso e sou Caeiro.
(Um pequeno Caeiro)
Em primeiro eu vejo e toco
E em segundo eu ouço e cheiro.
.
Sou toda a pureza das coisas
E toda a pureza das coisas é minha.
Vou ouvindo o mundo a cada dia
(E quem me dera só ter ouvido)
E não entendendo que a cada dia eu nem sei
Só que é mais um dia.
.
Mas que é isso de complicações?
Não existem essas.
Aliás, não existem nenhumas delas.
Existo só eu, Natureza
Das Naturezas, ao cheirar tão mal
Bem, do cheiro do nada tudo.
.
Há uma espécie d’instinto,
Um instinto, que nem é isso,
Que não é esquisito nem é bonito
Nem é instinto.
.
Hoje vou chorar.
Hoje não vou chorar
Porque não vou pensar que vou chorar hoje.
.
Hoje não vou ser nada.
Nem nada vou ser,
Porque nada implica saber,
E saber que tudo existe à minha volta
Não é inato, é…
(Não tem palavra ingénua)
.
Eu nasci ontem ingénuo.
Disseram-me à nascença
O quão bonita é a vida.
Mas não é bonita a vida
Por ser vida só, sem ser bonita
Ou feia, somente vivida.

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Poema de Carta II

September 13, 2009 · 5 Comments

Num dia que o mundo parava por casa
E eu parava por casa sem mundo.
No fundo eu não escrevia, mas à luz da vela
Eu rascunhava um desenho de letras palerma.
.
(Era o calor que falava,
Que cada linha ditava.)
.
«Teu dedo, ombro, tornozelo,
E o cabelo, ai! Esse teu cabelo…
É cá belo o teu rosto, vem,
Vem! Que me afogo em ansiedade,
Vem amar-me, que amo também
O teu corpo e tua alma, saudade!
.
Preciso amar-te sempre,
Agarrar-te sempre a mim.
Saber só que é presente
E passar sem tempo, assim…»

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Poema de Carta I (corrigido)

September 10, 2009 · 5 Comments

(Numa madrugada cerrada)
.
Dei por mim olhando o espelho
E ouvindo o meu sub-consiente.
«Vá! Respira fundo e deixa o espelho,
Escreve-lhe a carta,
Em vão tu não desesperes.
.
Que sabes ser tão vosso,
Quanto ser amor do paraíso,
Ver-vos sentidos com dois sorrisos.»
.
(Numa madrugada cerrada
Uma caneta na mão escreveu)
.
Sei de cor
O sabor da tua pele.
A minha sede insaciável,
Que decora cada olhar inesquecível
Tem a tua descrição
Na ponta da minha língua.
E o meu passo marcado é
A cada passo de paixão
Traçado, que se adivinha.

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VIII. O meu nascimento

September 8, 2009 · Leave a Comment

Não quero mais nada.
Quero só nascer
E vou nascer como sempre quis.
.
Quero aprender a seguir o meu rumo,
P’ra já sem rumo, eu p’ra já ao mundo
Exposto sem defesas
Nem berços d’oiro.
.
Coisas, coisas, coisas, coisas…
Pensarão só eles em coisas?
Eu cá só penso em saber quem sou.
Quero eu dizer,
Em não saber e ser só.
Queimei todo aquele meu dinheiro.
Não me faz falta todo o meu dinheiro
Nem parte de todo o meu dinheiro.
O dinheiro serve para poder ter planos
Materiais e cobrir os seus danos.
Mas eu tenho outros planos,
(Quem não tem planos?)
Todavia, o meu único plano
Passa por queimar todo o meu dinheiro
E partir, à procura do meu plano.
.
Fugir de ti, mundo, eu vou
Até aos confins perder todas as minhas raízes,
Aquelas que não são raízes,
Só restos de projectos
Do que não acredito.
Futuro. Que é o futuro?
.
Apenas ficar onde devia estar,
Perder-me e nunca mais chorar
Por ver qualquer que seja o lugar
Que existe só, não é mais nada.
.
(Porque vou eu afinal chorar ao ver esse tal lugar?)

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XIV. Arrependimento

September 7, 2009 · 3 Comments

Não me arrependo do momento do meu nascimento.
Nem me arrependo daquele nascimento
Gradualmente crescente,
Que eu não vi levar-me com ele.
(Sempre cá esteve).
.
Arrependo-me da ingenuidade.
Se eu não soubesse que fui ingénuo,
Não queria talvez ser só outra vez
Espécie d’humano animal.
Caminhar entre espécies e caçar
Somente p’ra me alimentar.
.
Mas não me arrependerei nunca do meu pensamento
Que provocou o momento do meu nascimento.
Porque não fosse o pensamento que eu odiasse,
Então teria sido o pensador que pensa que pensar
É amar julgar ser superior à ave ali, que vai só a voar.
.
Mas eu já sei o que é pensar.
Não me livrei dele.
(Dele o pensar)
Talvez tivesse de saber que nunca poderia livrar-me sempre
E acabar com ele.
Acabar assim, tão naturalmente.

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É numa tarde que eu escrevo

August 20, 2009 · 3 Comments

É numa tarde que eu escrevo
E parou a chuva em segredo.
A brisa corre com medo,
Cobre o meu sigilo abandalhado
E fi-lo escrito, como sei.
É simplesmente rascunhado.
.
Na areia molhada por água
Que leva e traz em ondulações,
Eu guardo no meu ouvido,
Qu’encosto o búzio p’ra ouvir
E sentir, ao poente, as sensações.
.
Neste «Ó nosso mar de sal»
O mal deslumbra-se à beleza.
Eu segredo, com certeza,
Certo de toda a minha delicadeza
E na esperança da última dança.
.
(E como cavaleiro das sereias
Chego a cada maré mansa.)
.
Há mil e um Verões guardados,
Há mil e um factos de cada noite
Enterrados num oceano.
Mas mantém-se a minha areia,
Dia a dia, ano p’ra ano,
Onde eu vou deitando e pensando.

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