Lembro

Bem me lembro, e como lembro,
Como tudo era diferente.
Olhava p’ra o chão de perto e fazia que o presente
Passado fosse vivido preciso,
Lá no momento que eu calcasse novamente um pedaço de terra ardente.
.
Não era ser demente, era ser um pequeno cargo,
Um problema resolvido quando às costas transportado.
E com mimo ao ser levado para um berço voador.
É que eu fui piloto durante aqueles anos d’ouro…
.
Enquanto a música tocava, a minha cama de madeira
Rápido se transformava numa bateria derradeira.
Era a primeira vez que eu via o mundo.
Fosse qual fosse ele, tinha que pôr as mãos em tudo.

Ti Julito

Sentado no balcão, sozinho.
Reclamo com o Ti Julito, e peço
Que se acalme, eu já tenho tudo escrito.
Prometi deixar-lhe todo o dinheiro que ganhei.
Se amanhã tiver mais que o que tenho não deixei.
Eu sei, ele sabe, eu cumpro palavra.
Disse sempre até amanhã.
Amanhã sempre eu lá estava.

IV. Verão

Amo pelas tardes bem passadas no Verão.
Deitado, encostado ao mar, à espera da tua mão.
Gozo a brisa que me dão com o sorriso que me deste,
Escrevo na areia com a concha.
.
Raias Sol, são estrelas que brilham sempre,
Eu existo, sempre impaciente, quero ver-te.

Poema do sentido que o leitor atribui, tal que para si não seja sentido proibido

(Grito branco)
(Um só grito branco)
Agarro-me ao peito.
Este é um poema de encaixe perfeito.

Sobre Primeiro Poema

Primeiras palavras minhas.
(Depois de por mim lidas)
De todas apenas escritas
Palavras da minha vida,
Agora, que ressuscitam que tinham morrido,
Estão já na ponta do ouvido.
.
Amo os meus versos jamais
De amor, que provam ser mais
Que amar, ao reforçar nas estrofes finais
A soma dos meus ideais.

Animal

Prendam Barnabé aos poucos que há verdadeiros,
Façam-no ter olhos mostrados ser pouco meigos.
Encham-no de natureza naquele pânico geral
E transformem-no num animal.
.
Não o façam ser humano banalmente atirado
Ao muro cuspido do humanamente sentido.
Deixem-no ser um de vós,
Ser assim bruto. Amor e ódio nada, nem termo e meio.
Ser não belo ou feio, sem força de intenção.
Puxem-no pela mão.

Da terra

Ondas empurram-me entre rochas,
Que a minha terra molha as vossas.
.
Traz dela teu povo sustento,
Faz falta ao teu povo pôr tento
Na mão, às vezes.
.
Abrigo d’ilhas dos teus
Que outrora, quando Zeus
Dominava, tirou porções lá dos meus.
.
Vou deixar que entre em nós também
Amor, com todo o muito calor,
Que há pouco tão ou nada bonito
Que o Sol, aquela laranja longe no seu pôr.
.
Que maré te leva a tão bonita terra?
A terra esta, que é mar.

Sobre sonhar sonhar Sobre

A brisa corre na cara, que outro dorme,
Numa almofada mais uma cabeça qualquer.
Alguém não sabe que fazer daquela mulher.
Alguém quer pedir p’ra si se Deus quiser.
.
Repara na pureza que numa utopia
Fazia a qualquer caminhante, no seu dia-a-dia,
Trazer a alegria daquela mais uma fantasia.
.
Clima nunca muda, continua vida.
Não há mal em nós, ao ver mundo nos sonhos,
Há naqueles mal que ao concretizá-los e acabá-los
Suponho, estragam tudo o que há no imaginar.
.
É que quando não sonhares,
(Precisas de sonhar p’ra no fim me amar.)
E quando não quiseres sonhar,
(Só precisas de sonhar p’ra concretizar.)
Morre o sonho de não morrer.
E tu morres.

Monstros debaixo da cama

(Vai-te papão, vai-te embora)
.
Quis saber como sempre foi lá em baixo.
Arriscar-me-ei agora assim,
Sozinho no quarto, sem ter cá a minha mãe?
Não olho agora para debaixo.
Uma chuva de energia verde atravessa o espaço poeirento.
.
(De cima desse telhado,)
.
Desta janela é alto.
Acabei de lá olhar abaixo.
Não olho mais com olhos de ver
Por olhos de ver serem arrancados,
Que a Cuca mos vai querer comer.
.
(Deixa dormir o menino)
.
Vou comer mesmo que não goste,
Que o homem do saco trabalha com as hostes
Da dona Maria Cigana, que ameaçou levar minha mana.
O saco preto mete medo!
.
(Um soninho descansado.)

Orgasmo Literário – Eu com Tigo

Eu quero a cada noite soltar gritos,
Desespero, aguardando que o momento chegue e faça
Com a raça de alaridos nos gemidos,
Q’eu em ti contigo em mim, só com sentidos.
.
E beber do ar que há, já carregado,
Não cansado, mas mesmo assim tão quente
Quanto a frescura de amarmos.
Que saímos de um só corpo e nesse ar,
Sim, nesse ar, nós vamos voar.